Onde Tudo Permanece Vivo
por Jefherson Maiczak, curador
“Criei um mundo, entreguei-me ao devaneio”
Guita Soifer
Guita Soifer criou um mundo. Não no sentido de um universo isolado ou autorreferente, mas como um campo de forças no qual memória, matéria, processo e tempo se articulam de maneira singular. Seu trabalho nasce de uma visão única da vida, que se manifesta por meio de recortes de lembranças, objetos encontrados, resíduos industriais, imagens familiares, gestos repetidos e experimentação matérica.
Seu trabalho opera menos como exposição e mais como imersão, um convite para transpor o limiar de um microcosmo com sua própria cosmogonia, cujas lógicas internas não se submetem integralmente às convenções do mundo utilitário nem às normativas tradicionais do sistema artístico.
A produção de Guita percorre diferentes instâncias da arte, desdobrando-se em múltiplas formas e linguagens. O processo e o acaso ocupam papel central em sua criação; deixam de servir para algo e passam a existir como proposições. Criar, aqui, não é concluir, mas permanecer em estado de abertura. A obra não se encerra: ela se transforma, reaparece, se reconfigura. Cada elemento encontra sua autonomia. Não há forma final, tampouco expectativa a ser cumprida. Nesse mundo, tudo é vivo, tudo existe e tudo diz algo, sem a necessidade de se definir ou se justificar de maneira pretensiosa. Nada é fixo, nada está definitivamente finalizado. A própria delimitação de “obra de arte” é tensionada, expandindo os objetos em um campo de proposições artísticas que desafiam as categorias lógicas do mercado e do sistema artístico. Nesse universo, tudo existe sem a necessidade de se definir de maneira unívoca. O sentido não é imposto; ele emerge da relação.
Ao longo de décadas de produção, Guita sempre compreendeu o processo como força motriz de sua criação. Embora seja possível notar suas habilidades e técnicas artísticas sofisticadas desde a infância, no desenho e na pintura, ao adentrar profissionalmente na carreira artística, Guita buscou justamente um movimento consciente de rompimento da técnica virtuosa. O abandono do preciosismo não representa uma perda; muito pelo contrário, é
uma escolha. Ao deslocar o foco da técnica para o processo, Guita encontra um dos pilares centrais de sua produção: a proposição como forma de pensamento artístico. Mais do que produzir obras finalizadas, ela constrói situações, ideias e estados de transformação contínua.
Neste mundo que Guita Soifer criou, quem diz o que as coisas são, não são elas próprias. Os objetos não possuem uma narrativa intrínseca, mas nos convidam a extrair deles o que conseguimos a partir da nossa história, memória, repertório e vivência. Fotografias de família, fragmentos arquitetônicos, restos industriais, objetos descartados… tudo se oferece como campo relacional. Ao ativarmos diferentes sinapses, transformamos também nossa maneira de ver e sentir esses materiais. Aqui, os objetos são orgânicos, vivos, e estão em constante modificação.
Desde 2017, comecei a adentrar esse universo particular. Conheci Guita Soifer durante a minha graduação em Artes Visuais, enquanto estagiava no Museu de Arte Contemporânea do Paraná. A partir da mediação de outro artista, iniciamos trocas que, num primeiro momento, se deram por meio do registro de seus trabalhos. Com o passar do tempo, fui me tornando cada vez mais imerso nessa dimensão única. Vindo de uma formação acadêmica formal e trabalhando em uma instituição renomada, o encontro com sua produção provocou um estranhamento inicial. Não porque faltasse rigor, mas porque o rigor operava em outra chave. As obras não estavam concluídas, pois nunca estão. Seu ciclo de produção nunca cessa. O trabalho de Guita é, por definição, inacabável.
Essa natureza processual e mutável justifica a ausência sintomática de títulos e datas na maior parte de sua produção. O que, à primeira vista, pode parecer ausência de informação revela-se, com o tempo, como coerência à sua forma de criação, mesmo que de forma inconsciente. Nomear e datar pressupõe encerramento; aqui, o tempo é contínuo e a forma, provisória. Gravuras tornam-se livros; livros se expandem em instalações; objetos encontrados se reorganizam em novas materialidades. Trabalhos já apresentados retornam, se transformam e assumem outras configurações. Não há hierarquia entre etapas; há continuidade.
Durante sua trajetória artística, Guita trabalhou com os mais diversos materiais possíveis, mas hoje acredito que sua maior matéria-prima é o seu próprio trabalho, que se reconfigura, se transforma e se mantém sempre vivo, constantemente reativado e recontextualizado. Essa trajetória de acompanhar e poder viver um pouco dentro deste mundo, me permitiu compreender a arte
de uma forma que antes não me era possível: aqui, a arte existe por si mesma, sem atender a expectativas externas. A função dos objetos acaba neles mesmos.
É por isso que vemos o resgate de tantas peças que outrora possuíam função e utilidade, mas que se viram descartadas e inutilizadas: latas, garrafas plásticas, sobras industriais de acrílico, molduras antigas, fotografias anônimas, objetos de escritório, moldes de sapatos, ornamentos arquitetônicos, redes de proteção da construção civil, carrinhos de bebê enferrujados, restos de moldagem escultórica, blocos de cimento, cacos de vidro, tapetes rasgados e todo material imaginável que, em outra hora, teve sua função e agora se viu descartado. Neste mundo, ele cria uma nova vida. E aqui, onde ele não tem mais utilidade, é onde pode se tornar arte. Subverte a lógica do descarte e ressignifica o que foi considerado inútil, paralelamente a uma crítica à produtividade compulsória que também recai sobre os corpos, principalmente o feminino.
A memória constitui a espinha dorsal dessa produção. Memória carregada por fotografias antigas, objetos herdados, fragmentos de outros tempos, textos breves que evocam sensações e lembranças. Não se trata apenas de uma memória individual, mas de um registro coletivo do que passou, porém nem por isso se encerrou; muito pelo contrário, neste mundo está mais vivo do que nunca, talvez seja apenas no início de sua trajetória.
Nesse universo, Guita é profundamente generosa. Generosa ao incluir objetos, pessoas e olhares; generosa ao convidar o público a adentrar um mundo aberto, em constante transformação. Guita também é generosa consigo mesma, quando se permite ser mutável, estando sempre disposta a reavaliar suas composições e as próprias ideias sobre cada peça que habita este mundo. Esse movimento é o que permite a vida contínua de toda essa produção, mantendo-a em constante mutação.
Acompanhei Guita em dois ateliês diferentes de trabalho. Em visitas sucessivas, pude chegar próximo de suas criações; e é notável como, em cada visita, algo se move. Objetos mudam de lugar, se agrupam de novas maneiras, se deslocam. Testemunha-se um rearranjo constante: utensílios domésticos justapostos a pinturas, uma correia de borracha que se une à carcaça de uma moto, azulejos antigos que se reposicionam em outras formas, gravuras transmutadas em livros-objetos e desenhos que se transformam em suporte. Esses espaços nunca se mantêm os mesmos, assim como seus habitantes. Não existe visita que você fará a esse mundo
que seja igual; a cada vez que você adentrar, algo estará diferente, algo se modificou, seja no espaço ou em nós mesmos.
De uma esmera desenhista e pintora enquanto criança ao seu trabalho em instalações contemporâneas de grande porte, o percurso artístico de Guita atravessa inúmeras técnicas. Suas primeiras exposições incluíam aquarela e pintura, mas é na gravura que apresenta o seu grande esmero artístico. Iniciando com registros da natureza, espaços domésticos e arquiteturas antigas, rapidamente, desconstruiu os protocolos tradicionais da técnica, abandonando a tiragem múltipla e a representação figurativa para explorar a materialidade pura da matriz e da impressão como evento único, como em seus recortes de placas de metal dispostas sobre o papel.
O encontro com o livro em Braille expandiu a compreensão da artista sobre o livro, inaugurando uma reflexão sobre outras formas de leitura. Dessa investigação emerge uma extensa produção de livros de artista, ou, como a própria artista os define, “livros livres”, nos quais narrativas se constroem através de texturas, cheiros e cores, prescindindo da palavra, que, quando presente, atravessa toda a obra em forma de recortes, fragmentos e escritos breves.
Atravessada por sua origem judaica, Guita Soifer revisita a impessoalidade brutal dos números que tentam, de forma insuficiente, dar conta das vítimas do Holocausto. Contra a abstração estatística da morte em massa, seu trabalho se volta ao que resta: óculos quebrados, malas desgastadas, sapatos usados, escritos em hebraico e a simbólica estrela de Davi. Ao resgatar esses fragmentos, a artista reinscreve a memória no campo do sensível por meio da falta. Mesmo em seu mundo criado, espaço de devaneio, a realidade histórica insiste. A crueldade atravessa a obra como lembrança necessária. Nesse gesto, criar é um território onde a memória continua a dizer sobre o outro.
Na produção escultórica, objetos se reorganizam por meio de resinas, vidros derretidos, cerâmicas incrustadas e apropriações diversas. A fotografia e o vídeo também integram esse universo, registrando tanto o entorno urbano quanto a própria artista. Em muitas imagens, Guita aparece de costas. Sua silhueta se repete, mas seu rosto permanece oculto. Em um tempo marcado pela superexposição da imagem, esse antirretrato é um poderoso dispositivo que direciona o olhar do espectador para o que está a observar, e não para o seu eu. Guita olha para frente, para o mundo, e nos convida a olhar com ela.
Esse microcosmo nos confronta com uma angústia contemporânea: a necessidade constante de definir propósitos, atribuir função e entregar resultados práticos. Aqui, nada disso é preciso. Tudo existe para se propor a ser exatamente o que é. Ao adentrar esse mundo, somos convidados a participar, a nos relacionar, a acessar nossas próprias memórias e a permitir que tudo, inclusive nós mesmos, possa se transformar.
Totalmente entregue ao devaneio, Guita Soifer não apenas criou um mundo; ela o mantém vivo.