A arte que habito: Ana Carolina Ralston fala sobre Vestir o Olhar
A relação de Ana Carolina Ralston com o universo da arte é construída a partir de múltiplas camadas. Jornalista cultural, pesquisadora e curadora de Vestir o Olhar, ela alia experiência acadêmica e prática na criação de projetos que conectam a produção contemporânea a novos públicos. Seu percurso transita entre pesquisa, escrita e curadoria, sempre orientado pelo desejo de ampliar o diálogo entre arte e sociedade.
Mestra em Jornalismo Cultural pela Columbia New York University e pós-graduada em Arte, Crítica e Curadoria pela PUC-SP, Ana Carolina compartilha, em entrevista ao Pátio Batel, sua visão curatorial, as referências que nortearam a escolha dos artistas e as expectativas para essa ocupação inédita.
Confira a entrevista completa a seguir.

O que significa, para você, criar uma ocupação artística em diálogo direto com a moda dentro de um espaço como o Pátio Batel?
Fazer essa ocupação é muito especial para mim. Minha formação é em jornalismo cultural e de moda, e ao longo da carreira atuei em diversos veículos que entrelaçam esses universos, como Vogue, Bazaar, Marie Claire e Estadão.
E essa relação sempre foi muito potente. Basta lembrar de artistas como Leonardo da Vinci, Sonia Delaunay e Hélio Oiticica, que exploraram a moda como extensão da arte e do ato de vestir.
Trata-se de um tema atual e ao mesmo tempo histórico, presente nas expressões clássicas, modernas e contemporâneas. Ter a oportunidade de desenvolver esse projeto e contar com o Pátio Batel para aproximar a arte contemporânea das pessoas é algo muito significativo.

Quais foram as principais referências e critérios que orientaram a escolha dos nove artistas de Vestir o Olhar?
A escolha partiu de alguns pontos centrais: reunir artistas contemporâneos com linguagens distintas, atuando em diferentes gêneros e plataformas, mas que tivessem relação com a moda. Alguns de forma direta, por meio de colaborações com marcas internacionais — como Renata Egreja e Filipe Jardim, e outros de forma mais sutil, como Mariana Palma, que utiliza o vestir e o tecido como inspiração e material em suas pinturas.
O fio condutor é justamente essa ligação entre arte e moda, que atravessa a história e encontra no Brasil um marco no parangolé do Hélio Oiticica. A partir dali, a ideia do vestir como gesto artístico se expandiu em muitas direções, retomadas aqui pelos artistas selecionados.
A exposição acontece em meio ao fluxo cotidiano do Pátio Batel. De que forma esse encontro inesperado entre arte e público transforma a experiência?
O encontro direto com o público é o centro da proposta. A expografia cria uma experiência semelhante a um caça-tesouro: as obras vão sendo descobertas ao longo do percurso, revelando diálogos entre arte e moda a cada espaço do shopping.
Esse formato, descentralizado e integrado à arquitetura, permite que a exposição vá além do Átrio, ampliando conexões entre artistas, marcas e lojas. Ao ocupar áreas comuns, acessíveis a todos, a mostra multiplica as oportunidades de fruição e amplia o alcance da arte contemporânea.
Você tem uma trajetória que conecta curadoria e jornalismo cultural. Como essas duas dimensões se entrelaçam no seu olhar para projetos como este?
A seleção dos artistas reflete justamente essa multiplicidade de olhares. Cada um atua em um campo distinto, mas estabelece pontes com a moda.
Vigas traz a tecnologia, o futuro e a ressignificação dos objetos; Renata Egreja trabalha o tecido e a pintura em chave clássica e contemporânea; outros ampliam a paleta de possibilidades dentro das artes.
Durante a pesquisa, esse cruzamento de vertentes foi essencial para compor um conjunto que revelasse diferentes camadas desse diálogo.
Quais temas ou inquietações hoje atravessam sua pesquisa e de que maneira podem dialogar com uma mostra como Vestir o Olhar?
Minha pesquisa atual se dedica a dois eixos principais: tecnologia e natureza. Embora minha formação em jornalismo cultural e de moda também seja uma base importante, noto que o tema ambiental atravessa de maneira marcante a produção dos artistas reunidos.
Mariana Palma explora a natureza morta e a passagem do tempo; Renata Egreja, as cores e texturas de um universo natural; Vigas, em Mycelium, relaciona a rede dos fungos à conectividade mental; Filipe Jardim revisita a fauna e a flora brasileiras.
Todos, em maior ou menor medida, trazem à tona relações com a natureza e com o ambiente que nos cerca. Não é por acaso: são justamente essas pesquisas que despertam nossa atenção e se conectam de forma tão direta ao projeto.

Vestir o Olhar
Até 15 de outubro | Entrada gratuita
Curadoria: Ana Carolina Ralston
Produção: AYO Cultural
Realização: Pátio Batel
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