Ronaldo Fraga e Rafael Chaouiche refletem sobre direção criativa no Vestir o Olhar II
O que faz um diretor criativo? Essa foi a pergunta que abriu a programação de talks do Vestir o Olhar II, no dia 16 de setembro de 2026. No Átrio do Pátio Batel, os estilistas Ronaldo Fraga e Rafael Chaouiche se encontraram para uma conversa sobre criação, repertório, moda e os diferentes caminhos que fazem parte do trabalho de um diretor criativo. A conversa teve mediação de Mariah Viana, diretora criativa da Novolouvre, VP de Cultura da ACP e coordenadora da Bienal da Moda, que conduziu o encontro a partir das diferentes dimensões que atravessam a direção criativa, da inspiração e construção da imagem à relação entre conceito e roupa.
Mais do que pensar em roupas, falar sobre direção criativa é falar sobre construção de universos. É reunir referências, interpretar o presente e estabelecer conexões entre diferentes linguagens. Ao longo do encontro, Ronaldo Fraga e Rafael Chaouiche compartilharam experiências e perspectivas sobre seus processos de criação, enquanto a conversa ampliou o olhar para tudo o que existe entre uma ideia e a sua realização.
Muito além da roupa
Para Ronaldo Fraga, o diretor criativo é, antes de tudo, um “criador de universos”. Uma definição que amplia o olhar sobre a própria moda e sobre tudo o que pode fazer parte de um processo criativo.
A música, por exemplo, ocupa um lugar importante em seu processo de criação. Antes de uma coleção nascer, o estilista busca uma trilha que ajude a construir sua atmosfera. Em outros projetos, essa expansão pode acontecer por meio do cenário, da luz, do figurino ou de outras formas de expressão.
É também por isso que Ronaldo defende que o diretor criativo saia do lugar tradicionalmente associado à moda. Ao criar uma ópera ou organizar uma quermesse, por exemplo, existem novos elementos para observar, combinar e transformar. Para ele, exercitar a criação longe da roupa também pode trazer novos caminhos para o trabalho desenvolvido dentro do próprio ateliê.
Repertório também é matéria-prima
Criar passa por observar. E, para os dois estilistas, repertório não se resume a acumular referências visuais.
Ronaldo Fraga fala sobre a importância de encontrar aquilo que ainda não foi percebido, de olhar para o que passou despercebido e elaborar a partir daí. É um exercício de atenção que desloca o processo criativo das referências mais óbvias.

Rafael Chaouiche também chama atenção para a liberdade do papel em branco. Para ele, a moda perde quando a criação parte apenas de imagens já prontas. Em vez de reproduzir referências conhecidas, o processo pode começar justamente pelo espaço aberto para a descoberta.
Nesse sentido, a direção criativa envolve reunir diferentes informações e transformá-las em uma narrativa coerente. O repertório se constrói com o tempo, com a experiência e também com a observação constante do mundo ao redor.
Entre conceito e desejo
Existe, ainda, um desafio importante: fazer com que uma ideia criativa encontre espaço na vida real.
Rafael Chaouiche observa que faz parte do trabalho do diretor criativo partir de um conceito e desdobrá-lo em uma coleção que também seja desejada e usada pelas pessoas. A criação não termina na concepção de uma peça. Ela continua na relação que cada pessoa estabelece com aquilo que veste.
Essa perspectiva aproxima criação e escuta. Ao acompanhar de perto as mulheres que usam suas roupas, Chaouiche entende que o contato com as clientes também amplia seu repertório e transforma sua maneira de criar.
A roupa, afinal, precisa encontrar alguém. É nessa relação entre criação, corpo e desejo que uma ideia deixa de ser apenas conceito e passa a fazer parte da vida.

Criar para o agora
Se a moda está em constante transformação, o diretor criativo também precisa estar atento ao seu tempo.
Para Ronaldo Fraga, a moda não conseguiu prever exatamente como seria a roupa do futuro. Seu desafio está em responder ao presente. Isso significa observar as questões do momento e entender como a criação pode dialogar com elas, seja para provocar, acolher ou simplesmente refletir aquilo que está acontecendo ao redor.
Essa atenção ao presente também aparece na forma como Ronaldo entende a inspiração. O Brasil, suas diferentes identidades e a multiplicidade de experiências que formam o país são fontes recorrentes de sua criação. Ao longo de sua trajetória, o estilista transformou esses repertórios em diferentes narrativas, mostrando como a cultura pode ser matéria-prima para a moda.
No fim, criar também é saber olhar para o que está diante de nós de uma maneira diferente.

Um olhar que vai além
A conversa entre Ronaldo Fraga e Rafael Chaouiche mostrou que a direção criativa ultrapassa a criação de uma coleção. É um exercício que reúne repertório, pesquisa, curiosidade e a capacidade de conectar diferentes universos.
Entre música, arte, comportamento, cultura e moda, o diretor criativo constrói caminhos para transformar ideias em experiências, imagens e, finalmente, roupas que encontram quem vai lhes dar vida.

A programação continua
O encontro com Ronaldo Fraga, Rafael Chaouiche e Mariah Viana abriu a programação de talks do Vestir o Olhar II, que segue no Átrio do Pátio Batel ao longo da exposição.
Até o encerramento da programação, diferentes convidados passam pelo espaço para discutir temas que atravessam a moda e seus diálogos com a arte, a cultura, o comportamento, a comunicação e a economia criativa. A agenda reúne talks, visitas guiadas, oficinas, desfiles e outras experiências que ampliam os caminhos propostos pela exposição.
Os talks são gratuitos e têm vagas limitadas. A programação e as inscrições estão disponíveis pelo aplicativo Pátio Batel, na aba de benefícios do Singular.

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